Destaque - Feira do Livro do Porto
Atencão!
16:00
Dia 29/05/2004
Sessão de autógrafos: Pedro Paixão
Local: E 3 e E 5
Organização: Bertrand/Quetzal
Sessão de autógrafos com Pedro Paixão autor de "Quase Gosto da Vida que Tenho")
PERFIL
Paixões de Pedro Paixão
Professor de Filosofia e autor de culto para os jovens, diz que não gosta de seduzir
Quando tem que preencher um formulário dos muitos que, hoje, são "absolutamente necessários" por todas as razões e mais algumas, não sabe o que escrever no espaço reservado à profissão. Isto porque, apesar de Pedro Paixão ter muitas actividades - é professor universitário, um dos sócios de uma agência de publicidade, escritor e, agora, também fotógrafo -, não se sente bem em nenhuma delas. "Sou muito contraditório", diz o autor que não deixa os críticos indiferentes - ou se gosta ou se detesta (e a um dos últimos, Pedro enviou uma coroa fúnebre).
Desde há três anos que deixou de gostar de ensinar, ao atelier vai quando é preciso, muitas vezes apenas para assinar papéis, da escrita só se ocupa os 15 dias em que a Universidade Nova encerra ("escrever ficção é incompatível com o estudo da filosofia porque tudo é diferente, as horas a que nos deitamos, o que se bebe, o que se fuma...", explica) e imagens só tem por hábito fixá-las com palavras e sinais de pontuação. "Não me considero infeliz, mas todos os dias são, para mim, muito difíceis. Sou uma pessoa extremamente preocupada com os meus problemas e os dos outros. Eu queria 'apenas' ser melhor pai, melhor filho, melhor marido, melhor amigo. Queria que os dias passassem sem tanto tormento, com mais paz, tranquilidade e sossego", confessa à VISÃO, poucos minutos depois de ver, pela primeira vez, barely legal, um conto e uma dúzia de fotografias que acaba de publicar, na editora Oficina do Livro.
O lado 'conservador e puritano'
Os dias que se seguem serão, certamente, menos amargurados. Basta ouvir a sua estrondosa gargalhada e ver a forma hilariante como segura o pequeno volume encadernado, versão final daquilo que, até à altura, apenas conhecia no ecrã do computador. "Adoro o livro. Vou dormir com ele sobre o peito. É uma superstição que tenho. Ter o livro nas mãos acalma?me", explica.
Pedro Paixão nasceu há 43 anos, numa família que vivia no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. Sempre bom aluno, é o filho mais novo de um agrónomo e de uma farmacêutica (tem uma irmã sete anos mais velha, doutorada em Sociologia e, actualmente, empresária).
Gostava de Matemática, quis ser astrofísico e, mais tarde, durante a faculdade, "quis ser comunista e, por arrastamento, economista e político". Em 1974, fez o 2.º ano do Instituto Superior de Economia, mas acabou por ir parar à Filosofia, com uma licenciatura feita em três anos e uma tese de doutoramento sobre "o conceito de alma", pela Universidade de Lovaina, na Bélgica, aprovada com a mais alta distinção.
Recuperou de um desgosto amoroso (com uma judia, tal como Leonor, 30 anos, com quem está casado há cinco anos) e escreveu o seu primeiro livro, A Noiva judia, que as Edições Cotovia publicaram em 1992. Fê-lo, sublinha, sobretudo para agradar à mãe, grande leitora e admiradora da "classe" dos escritores, sobre os quais Pedro promete escrever um livro.
Mais tarde, fundou com Miguel Esteves Cardoso (com quem também esteve até ao número sete de O Independente), a Massa Cinzenta, agência de publicidade de que ainda hoje é sócio com Duarte Rocha Antunes e José Fialho.
Conta que foi assim, com este "lado mais comercial", que provou, desta vez ao seu pai, que também tem jeito para o negócio, que é capaz de fazer dinheiro, como o seu avô ("o milionário de Campo de Ourique", como lhe chamavam) que emigrou para a América e fez fortuna na indústria da cerveja.
Oito anos e outros tantos livros passaram desde a sua estreia literária. Desde então que a sua escrita - de rajada que só agora corrige e emenda, feita de frases curtas e incisivas - ganhou fama por ser desconcertante. "Eu tenho um lado rebelde e perverso, mas também tenho um lado muito puritano e conservador. Talvez tenha alguma coisa a ver com o meio onde nasci. Tenho a noção que é preciso repor o Bem", sustenta. Deve ser verdade o que diz sobre si próprio, a avaliar pela extrema preocupação que barely legal fosse "escandaloso e provocador" aos olhos dos leitores e, sobretudo, aos do seu filho David José, de nove anos.
Pedro Paixão teve uma má experiência com um dos seus admiradores. Do que, concretamente, se passou fala com meias-palavras, mas afirma: "Desprezo todos os meus fãs. Não gosto que haja confusão entre a pessoa que escreve e a pessoa que sou. Detesto ter poder sobre quem quer que seja. Não quero usar o meu poder, seria um pecado que não me perdoaria". E remata: "Não gosto de seduzir." Quem diria...
S.B.L.
(Visão 1999)

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