segunda-feira, 24 de maio de 2004

Casas do Porto (continuação)

O nosso propósito aqui é mais modesto, e de uma natureza inteiramente diferente. Vimos falar apenas da casa do Porto, a casa vulgar que todos conhecemos às centenas por estas ruas, e que, por isso mesmo - a que, num processo paralelo e inverso, damos em etnologia o nome de etnocentrismo - tão incaracterística se nos afigura, da qual tão pouco parece haver que dizer, e que tantos portuenses zelosos aspiram a ver desaparecer dos arruamentos da cidade, substituída pelos grandes "palácios" actuais, de nomes retumbantes; essa casa que nada recomenda especialmente, mas que afinal é uma das expressões mais típicas do Porto, que tem o seu estilo próprio e a sua tradição legítima, e que traduz as condições históricas e político-sociais do velho burgo, a índole e a vida da sua gente.
O estudo da habitação urbana, sob o ponto de vista etno-cultural, no sentido de se procurar a definição da casa de uma cidade determinada e a sua relação com os demais factores culturais do grupo, que a expliquem, não é tarefa fácil. A casa é sempre o produto de uma grande multiplicidade de elementos inter-relacionados, reflectindo condições naturais e históricas, técnicas, estrutura económica e social, profissões, conceitos de família, gostos, mentalidade e até certos sentimentos, em especial sentimentos de grupo, das pessoas que as constróem e habitam. Numa cidade grande - e tal
é o caso do Porto -, em que a casa se amolda a níveis e matizes muito diferenciados, que sofre a influência de uma elaboração técnica e de um entrecruzamento de culturas muito complexos, a que não são estranhos mesmo factores de invenção pessoal, a casa apresenta-se com uma variedade inumerável de formas e categorias, através da qual é por vezes difícil descortinar a unidade que permita a sua definição singular - a definição do protótipo a que todas obedecem, e que resulta das condições comuns, históricas e culturais. É o que apesar disso vamos tentar, procurando fixar certas linhas mestras fundamentais, que estabeleçam as classificações elementares de tipos, isolando, em relação a cada um deles, o seu conceito base essencial, dos multiformes acessórios que integram a realidade dos diferentes casos.

Continua :))

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