domingo, 15 de fevereiro de 2004

A saga de ?seu? Santos, o patriarca do Pão de Açúcar

ELZA YURI HATTORI

Valentim dos Santos Diniz, fundador do grupo Pão de Açúcar, de 90 anos, ainda acorda cedo e vai trabalhar todos os dias.É o primeiro a chegar e o último a sair da empresa
A passagem do tempo parece não fazer muita diferença para Valentim dos Santos Diniz. O patriarca da família Diniz, fundador do poderoso grupo Pão de Açúcar, maior rede varejista do país, completa 91 anos dentro de sete meses. Mas não lembra, nem de longe, a figura de uma pessoa idosa, que poderia, com todo o direito que a idade lhe permite, estar se dedicando exclusivamente ao lazer, sem pensar mais em trabalho. Ou, o que seria pior, estar dependente de terceiros.

Muito pelo contrário, ?seu? Santos, como é chamado carinhosamente por todos que o rodeiam, continua a todo vapor. Acorda cedo e às 7h30, diariamente, ele já está chegando ao escritório, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, na matriz do Pão de Açúcar, onde ocupa o cargo de presidente honorário do conselho de administração. O filho mais velho, Abílio, preside o conselho.

Elegante, sempre de terno e gravata ? acessório que começou a usar ainda adolescente, no primeiro e único emprego como caixeiro e entregador de um empório paulista, em 1929 ?, ?seu? Santos faz questão de participar, hoje em dia, da reunião da diretoria executiva do grupo, agora profissionalizada. Embora não exerça cargo executivo, ainda dá opiniões no encontro que acontece todas as segundas-feiras.

?Ele é sempre o primeiro a chegar e o último a sair?, confirmam funcionários. Para quem pergunta se não está na hora de se aposentar, ele responde: ?Não penso em parar de trabalhar. Agora que fiz 90 anos??, diz, bem-humorado. Prova de sua disposição é que as tardes, todo os dias, são reservadas para visitar as lojas do grupo, perto ou longe do escritório.


Agilidade
A audição de ?seu? Santos não está mais 100%, o que o obriga a usar aparelho auditivo. Mas as pernas continuam muito bem. Tanto que no dia em que recebeu a equipe do DIÁRIO, repórter, fotógrafa, um funcionário da loja e o assessor do grupo tiveram de se dividir pelos corredores do supermercado número 1 e apressar os passos para encontrar ?seu? Santos, que circulava agilmente, primeiro pelo setor de vinhos, depois de frutas e legumes.

?Ele faz questão de conhecer todas as lojas?, confirma o inseparável segurança Capuano, que acompanha ?seu? Santos há 15 anos. ?Mas não dá trabalho?, garante.

Uma das coisas que ?seu? Santos mais gosta de fazer nas lojas é abordar os clientes, conversar e trocar idéias, com visitantes e funcionários. Na loja número 1, ao lado do escritório do grupo, enquanto recebia o DIÁRIO, ?seu? Santos aproximou-se da cliente Irene Linda e apresentou-se como o fundador do Pão de Açúcar. ?Eu sei, o senhor é muito famoso?, respondeu a consumidora, que pediu mais variedade de produtos orgânicos.

Cavalheiro, Valentim beijou a mão de Irene. O assessor da rede informou que a reivindicação da cliente já está nos planos da empresa, mas uma das dificuldades é a falta de fornecedores dessas mercadorias.

?Esta loja (a número 1) foi a primeira que fundei. Era uma residência muito grande, onde instalei a Doceira Pão de Açúcar (dia 7 de setembro de 1948) e depois o primeiro supermercado. Gosto de coisas grandes e de coisas boas. Por isso sempre pensei em criar uma rede. Assim chegamos a 16 estados ?, conta ?seu? Santos, pioneiro do hipermercado no país.

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