Qual das duas coisas existiu primeiro?A galinha ou o OVO?
O PRIMEIRO PROBLEMA:
MEDITAÇÃO D´UM PINTO RACIONALISTA.
.................Que coisa tão estranha!
Admirável! mas que grata mudança!
Fóra da prisão, a luz me expando,
E minha ideia por seu caminho avança,
Tão livre como as pernas que ando.
.................Não mais comprimido em tão triste aperto,
Posso ver, tocar, sondar, analysar,
.................E assim de tudo ficar certo.
Um pinto livre-pensador ficar na duvida!?
Pois na duvida sem duvida estou.
Muito me incommoda tão intrincado problema:
Porém não recuo: não largo o meu thema.
Não me cegam. Com a cegueiranão me dou!
................Ora vamos a ver.
Primeiro, quero saber como eu ali entrei:
Depois, onde me achava outr`ora:
E mais; porque não sahi senão agora.
................E tem que ver!
São tres problemas (entre muitos mais):
Fazem-me o cerebro adoecer.
................Mas meditemos:
Como sei eu se jamais estive alli dentro?
Ora, reflectindo bem, na realidade,
Acho contra a minha razão e dignidade
................Admittir que eu podesse habitar
N`um logar tão acanhado
................Como é a casca que venho de calcar!
Está claro: não podia!Pois não cabia:
Corpo, bico, pernas e azas,
E estes grandes pensamentos: podia? Ali?!
Eu trato essa ideia com o maior desprezo.
E`coisa incrivel. Declaro, e repito,
(E eu sou um pinto fino e teso)
Que o que não comprehendo, também não acredito.
Mas então eu dónde vim? Sim, d`onde?
Isto custa a dicifrar.
Ah! já sei! escuso de cogitar,-
Tudo é formado por uma força plástica,
De certos atomos achados no espaço,
Fortuitamente concorrentes por ali...
............Ora ahi está! E`tão claro o caso,
Como que eu agora estou parado aqui.
............Quem é que fallava?
Minha mãe a ralhar! Era o que faltava.
Tão ignorante, tão preocupada,
E, nas ideias da epocha, tão atrasada.
O que é velho não posso receber!
............Diz ella: tu estás tôlo, meu pintainho,
Isso é tão facil de perceber
Como a casca que trazes no lombinho.
............No meu lombinho? Que fanatismo!
Não creio que alli esteja.
Não a vejo; e digo, e repito,
Contra tanto e tão absurdo mysticismo,
Que n`aquillo que não vejo, também não acredito.
Jacob Horner
(tradução de J.S.C.)
1910Typographia Eduardo Roza
29, Rua da Magdalena, 31

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