sábado, 15 de maio de 2004

Entrevista: Luiz Achutti

Fotoetnografia


"Texto e imagem fixa (imagens pensadas e propostas em sequências) são duas formas diferentes de narrar. A imagem não é melhor nem pior do que o texto, é diferente".


Luiz Eduardo Robinson Achutti defendeu em setembro de 2002, na Universidade Paris 7, uma tese de doutorado em Etnografia. Objetivo da empreitada: conferir à fotografia um novo papel dentro do universo das ciências sociais. A tese, PHOTO-ETHNOGRAPHIE à la Bibliothéque nationale de France. La photographie comme narration ethnographique. Une autre façon de raconter, teve a orientação do cineasta/antropólogo Jean Arlaud, conseguiu nota máxima e convite para publicação do resumo. Com esse trabalho, Achutti consolida uma proposta que visa aproximar a antropologia da fotografia, num projeto que se iniciou pioneiramente nos tempos em que era aluno do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com vasta experiência em fotografia, esse gaúcho de Porto Alegre criou em 1987 sua própria agência. Como fotógrafo, Achutti já prestou serviços à revista IstoÉ, ao Jornal do Brasil e atualmente é free-lancer da Folha de São Paulo. Parte do seu trabalho pode ser visto no site http://www.plug-in.com.br/~lachutti. Nesta entrevista, esse descendente de italianos falou sobre fotoetnografia e outros assuntos.

Por Paulo Lima

BN - Em sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Paris 7 Denis-Diderot, em 2002, você analisa a autonomia da imagem, numa proposta interdisciplinar que procura aproximar a fotografia da antropologia visual. Quais são os principais argumentos do seu trabalho?

Luiz Achutti - Estou empenhado desde há muito tempo em ajudar a construir um lugar para a fotografia no campo das ciências humanas e mais especificamente na antropologia. Defendo que a fotografia pode ser muito mais do que mera ilustração. A fotografia pode também ser mais do que um instrumento de investigação, a fotografia pode e deve ser um discurso a mais à disposição do pesquisador, ela pode jogar um papel de importância mesmo no momento da difusão dos resultados de um trabalho de pesquisa. A fotografia agrega uma dimensão de outra ordem no discurso antropológico. Não se trata de alimentar disputas entre imagem e texto, pelo contrário, penso que o convívio entre ambas as linguagem só poderá enriquecer a antropologia. Texto e imagem fixa (imagens pensadas e propostas em sequências) são duas formas diferentes de narrar. A imagem não é melhor nem pior do que o texto, é diferente.

BN - Que razões o levaram a optar por esse tema?

Luiz Achutti - Quando entrei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1978 como aluno de ciências sociais eu já era fotógrafo e já pensava em poder aproveitar a fotografia no campo das ciências humanas. Naquela época se falava pouco no Brasil sobre antropologia visual. Comecei a aprofundar a antropologia visual utilizando a imagem fotográfica quando dei início ao meu mestrado em antropologia pela mesma universidade em 1993. Foi quando eu criei e comecei a conceituar o que chamei de FOTOETNOGRAFIA. Então três anos depois defendi uma dissertação que foi composta metade por textos escritos e metade por imagens, pela primeira vez no Brasil, e obtive aprovação com nota máxima. Felizmente eu pude contar com o apoio e a cumplicidade da minha Orientadora Ondina Leal, hoje diretora da Fundação Ford no Brasil. Foram também muito importantes as contribuições dos membro da banca, Drs. Etienne Samain (Unicamp), Cornélia Eckert (Ufrgs) e Ruben Oliven (Ufrgs).

BN - Por que você escolheu o ambiente da Biblioteca de Paris para embasar seu trabalho?

Luiz Achutti - Seria preciso conhecer a biblioteca para entender. Fui lá buscar livros e encontrei o meu campo de pesquisas, um misto de catedral com usina nuclear para guardar os 12 milhões de livros que encerram a cultura francesa e mundial. Dois mil funcionários em um ambiente de trabalho duro, funcionários insatisfeitos com a biblioteca então recém inaugurada (1998). Pensei que seria interessante conhecer e dar a ver o mundo do trabalho da biblioteca utilizando para isto as imagens fixas com status de um texto visual.

BN - Paris é mesmo a capital mundial da fotografia?

Luiz Achutti - Eu não conheço Nova Iorque, mas foi em Paris que tudo começou, a cidade é bonita, as pessoas gostam de fotografia, lá ainda restam as vibrações de todos os grandes da fotografia mundial que passaram por lá, lá viveram ou ainda vivem, Atget, Evans, Brassai, Bresson e etc.

BN - Como você começou na fotografia?

Luiz Achutti - Meu avô era fotógrafo no interior. Infelizmente o Bortolo Achutti não ultrapassou as fronteiras da cidade de Santa Maria. Eu o via trabalhar, às vezes espiávamos a lua com uma luneta à qual ele acoplava sua câmera.

BN - Você acha que a imprensa no Brasil dá o devido espaço ao fotojornalismo?

Luiz Achutti - Acho que o fotojornalismo foi o ramo de atividade que mais promoveu a fotografia até agora. Atualmente os artistas descobriram a fotografia mas muita besteira e muita foto ruim está sendo "vendida" como obra de arte. Foto arte é Mário Cravo Neto, por exemplo, que é fotógrafo, ele faz fotografia, se o mercado o considera um artista melhor para ele.

BN - Por falar em fotojornalismo, quem são seus fotógrafos preferidos no Brasil?

Luiz Achutti - Estou um pouco afastado do fotojornalismo mas tem o Orlando Brito, o Paulo Martinelli, o Carlos Carvalho, o Eduardo Simões, o Bittar, a Cristina Villares, o Daniel de Andrade, entre vários outros.

BN - Em sua opinião, o advento do digital na fotografia redimensionará a discussão sobre a ética na manipulação da imagem?

Luiz Achutti - Seria assunto para uma outra entrevista, há muito que se pensar, há mesmo uma estética a se redefinir etc. Questões de ética independem da técnica, com a digital o cara pode ser um desonesto mais perfeito, só isto.

http://www.sergipe.com/balaiodenoticias/entrevistaj22.htm

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