terça-feira, 6 de abril de 2004

...um pouquinho dos escolhidos para a mesinha de apoio à luz do silencio...por entre lençois...e cobertores quentes...


...O médico da aldeia Mário Figueira fazia clínica noutras terras e quando fomos visitá-lo soubemos que ele iria a uma aldeia sobranceira - poderíamos ir com ele até lá? e enquanto fazia a sua clínica, nós subíamos até ao cimo. E assim foi. Com a tua vivacidade determinação subias à minha frente rápida e leve. Eu sigo atrás um pouco surpreso e amedrontado da tua ligeireza imprudente. Não te apresses, sobe mais devagar. A certa altura vimos um pequeno ribeiro que descia pela encosta - pára, disse-te eu. E então debrucei-me e bebi, uma água fresca e de uma pureza natural. Bebe também, disse-te. Tu hesitaste. Mas por fim ajoelhaste e mergulhaste na água que te ficou a escorrer da boca, da face. E chegados ao alto, sentámo-nos a olhar a distância do mundo. Onde estávamos. Onde estou. Sentados ouvíamos passar um vento, digamos de solidão, vento genesíaco. Sentia-me fora do tempo, sentia que nós eramos os únicos habitantes sobre a Terra. E então irreprimivelmente quis beijar-te, abraçado contigo. E deu-se um caso estranho em ti. Porque sem uma hesitação te preparaste sumariamente para nos amarmos. E eu senti-me interdito porque não era isso que pretendia - lembras-te de um certo passeio que fizemos um dia de bicicleta no Sul? quis amar-te e tu disseste cortante isso não. Mas eu estremeci e amámo-nos longamente no deserto da montanha. E tu aceitaste a minha invasão e vibraste comigo num espasmo de prazer e de susto, não sei bem. Era a nossa comunhão com a Terra, com o universo, e o nosso amor entrava assim na ordem das esferas, das constelações. E imaginas como sofro agora só de lembrar? Como te amo. Te quero. Pudesse ao menos na minha memória doente recuperar o que tant.......

Vergílio Ferreira
Cartas a Sandra

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