sexta-feira, 9 de janeiro de 2004

....sopro...de bandidolas...com sabor...a música...

"Diário de um eremita"




***
de ti
guardo o mistério das orquídeas
o som dos barcos
e o suicídio das borboletas

***
hoje
passei todo o dia a colher vento – com as mãos
para te oferecer
e só depois notei
que não tenho onde o guardar

***
digo-te dos teus cabelos
a loucura dos barcos
e a maresia salgada
que os lábios esqueceram

***
de ti
digo os ossos
digo a pele
das tuas mãos

***
havia o mistério das orquídeas
o som claro dos barcos
e as borboletas acesas voando
no esplêndido calor dos dedos

***
diz-me
diz-me de ti
do inconcebível grito das borboletas

diz-me
que espaços iluminas
com a tremenda luz
que te nasce nos dedos
***
é através de ti
que recolho a beleza da água
e do seu límpido som

e é de ti
que procuro no vento

***
hoje
o dia está tremendamente calmo
simetricamente aberto nos flancos
como se as verdes borboletas
transportassem suicídio nas assas

***
hoje
coloquei as mãos por dentro do silêncio
sorri da loucura das borboletas
até me transformar numa pedra completa

***
o que me resta?
resta-me uma poesia de dedos imensos
e alguém
que jamais caberá dentro de um poema

***
hoje
gastamos quase tudo
o tremendo silêncio
e as mãos – quase primaciais

***
às vezes
invocavas o silêncio
até ficarmos juntos como a terra

hoje
resta quase tudo
o silêncio e a terra"

Eugénio Branco

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