terça-feira, 20 de janeiro de 2004

O Desencanto da Globalização- O Fim da Utopia Global

Coluna publicada no Jornal do Brasil, 03 de outubro de 1999

Em Bruxelas, dois adolescentes africanos da Guiné foram encontrados mortos de frio, dentro do compartimento do trem de aterrissagem de um jato da empresa belga Sabena, onde viajavam clandestinamente. Tentaram fugir para a Europa, para uma realidade diferente da existente em seu país. Nos bolsos dos jovens congelados, encontraram uma mensagem para os dirigentes europeus que, em resumo, dizia: "Nós sofremos enormemente na África. Ajudem-nos... Não temos direitos como crianças.


Nós temos guerras e doenças, e nos falta comida... Queremos estudar e pedimos a vocês que nos ajudem a estudar, para que possamos ser como vocês, lá na África."

Essa mensagem parece ter comovido o Sr. Michel Camdessus, diretor-gerente do FMI, Fundo Monetário Internacional. Pelo menos leu essas palavras na abertura da reunião conjunta do Fundo com o Banco Mundial (Bird), aos ministros da Fazenda dos 182 países que compõem a organização, dando um toque emocional a seu discurso, enfatizando que "chegou a hora de humanizar a globalização."

Segundo o noticiário, esse tipo de cerimônica é sempre cercada por ambiente frio, indiferente a tudo que não seja análise de número da economia. Mas, pelo que parece, a abertura do Sr. Camdessus contagiou muitos dos presentes. O presidente do Bird, Sr. James Wolfensohn, baseado em trabalho que vem sendo realizado há quatro anos, ouvindo 60 mil pessoas em 60 países, discordou do clima de comemoração pelo fim da crise financeira dos últimos dois anos. Chamou a atenção de todos e disse: "Não, a crise não acabou. O desafio apenas começou", lembrando que continua crescendo "uma outra crise, a crise humana daqueles condenados à pobreza." Na realidade, desfiou um rosário de autocríticas, insistindo até que os parâmetros monetários financeiros têm de ser recheados de aspectos sociais e humanos. E perguntou para o auditório espantado:

"Qual a utilidade, por exemplo, da privatização, se não existem redes de segurança sociais para lidar com o desemprego, nem regras para proteger o público do monopólio privado?"

Em artigo publicado no primeiro número da revista Brasil Sempre, o cientista político José Luís Fiori propõe retomar o debate do desenvolvimento, uma discussão que no Brasil foi banida pela louvação à globalização. Um tema que, no entanto, fervilha nos principais centros financeiros, sobretudo em Washington, com a reunião conjunta Bird-FMI, na qual se está concluindo que a cartilha liberal não está funcionando.

Alguns números impressionam. Se os 20% mais ricos do planeta já tinham uma renda 30 vezes maior que a dos 20% mais pobres, em 1965, em 1980 a diferença saltou para 60 vezes. A renda per capita dos latino-americanos já correspondeu a 36% da dos países mais ricos. Hojé é de 25%; O Brasil crescia a 6% nos anos 70, o percentual caiu para 0,96% nos anos 80 e para 0,6% de 90 para cá. Diz ele, com propriedade, que esses números iluminam o desencanto com a "utopia global."

Nesse artigo, o Sr. Fiori concorda em que já foi o tempo em que era possível o desenvolvimento dosado de países periféricos, como o Brasil. Agora não, desde que os Estados Unidos assumiram a hegemonia do mundo como potência única, depois da "desregulação competitiva" dos sistemas financeiros e da livre movimentação dos capitais. E aponta o Brasil, o México e a Argentina como os países que mergulharam de cabeça na utopia, e agora pagam caro pelo enorme erro. Por seu lado, o Sr. Camdessus clama por urgência nas ações e acha que "é preciso ouvir o grito dos pobres."

Em relação à reunião Bird-FMI, fossem essas declarações atribuídas a políticos em campanha eleitoral não nos espantaria nada. Mas são de dirigentes importantes do capital internacional, o que nos deixa pelo menos curiosos com o que poderá realmente estar acontecendo. Seriam essas manifestações uma primeira reação à tese do Plano Tobin, que propõe normas para taxação do capital especulativo internacional e o perdão da dívida externa dos países mais pobres? Ou, por hipótese, que estejamos chegando ao patamar imaginado por Marx, no qual o capital suplantaria o capitalista?

De uma forma ou de outra, não há como ignorar a questão e seguir em frente, como se nada de importante estivesse acontecendo, como faz o atual governo do Brasil, que não se pronuncia sobre questões tão vitais, preocupando-se unicamente como o déficit público, fiscal e previdenciário. Questões essas, é claro, importantes, mas que representam muito pouco em relação ao que talvez seja o que o Sr. Leonel Brizola chama de "perdas internacionais". Esse é o grande ralo por onde se esvai toda a nossa possibilidade de capitalização interna e formação de poupança. Se temos que pagar pelo déficit interno, pelo menos esse dinheiro fica por aqui. Mas se pagamos para o exterior, sobretudo com a dívida externa e seus juros progressivos, é um dinheiro que vai sem volta, perdido para sempre.

Posso até acreditar na boa-fé desses senhores do capital internacional. Mas é difícil ficar otimista com essas declarações, na esperança de que os ricos venham a ajudar os pobres. Pela experiência histórica, sou obrigado a duvidar que as palavras se transformem em ações, sobretudo na hora de assinar cheques e documentos destinados a fundo perdido, sem possibilidades de retorno ou lucro. Nessa esperança o Brasil se desilude há muito tempo e nunca chegamos a ver nenhuma demonstração efetiva de ajuda desinteressada. E nem por isso devemos culpar os estrangeiros, pois sempre foi claro e lógico que cada país deve, acima de tudo, cuidar primeiro dos próprios interesses.

Acredito que o Brasil está maduro para deixar de lado a utopia e entrar na realidade com pulso firme, direcionando o país para os seus verdadeiros interesses. Desviar-se das globalizações, privatizações e outros engodos, e rumar para um destino inteligente. E, como já indicava Emerson em 1837, procurando sempre "marchar sobre nossos próprios pés, trabalhar com nossas próprias mãos, falar segundo nossas próprias convicções."



Barbosa Lima Sobrinho
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa

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