quinta-feira, 30 de outubro de 2003

Os imprescindíveis

Os meus imprescindíveis não são intocáveis.
Perecem e inevitavelmente darão lugar e vez a outros… prescindíveis, que tornarão os anteriores verdadeiramente intocáveis… exactamente por perecerem e revelarem-se insubstituíveis.

Isto fará eventualmente sentido. Persisto portanto.

Não me refiro à família, aos amigos, aos amores.

Refiro-me ao capricho egoísta e provavelmente infausto de pensar que aqueles que por uma razão ou outra me são indispensáveis, poderão, um dia, perecer e assim me faltar… sumir.

Não prescindo destes meus heróis essenciais, que raramente me faltam e materializam o meu sossego e paz de alma, após delegar neles as mais pequenas e por vezes insignificantes tarefas.

Somos dados a rotinas e por vezes o inesperado não é tantas vezes bem recebido como o que algumas pessoas insinuam, alegando que a aventura as mantêm vivas.

Pode ser, ou não.

Eu cá fiquei transtornado quando o meu barbeiro se mudou de cidade. Que fazer? Vou esquecer a dezena de anos que este meu confidente me tratava de parte da aparência e entregar-me nas mãos do Eduardo mãos de tesoura da rua acima?

Assim foi. Não fiquei muito satisfeito com o resultado, toda a gente reparou, paguei mais caro e não me diverti tanto como me divertia com as sempre ousadas anedotas do António…

Imagino o dia em que me faltar o outro António. Sim… um artista que por acaso escolheu ser sapateiro. Faz com que use hoje as mesmas botas com as quais entrei pela primeira vez no meu saudoso barbeiro.
E se António sumir… a quem entrego eu as minhas botas? Prefiro deixá-las gastarem-se até ao limite… e assim deitá-las fora, preservando a memória do António… não profanando a sua obra.

Se um dia me faltar o Sr. Durães... a quem vou entregar eu o meu bólide… quem poderá substituir toda a simpatia, dedicação e honestidade deste homem… quem tomará conta do instrumento que utilizo todos os dias para me deslocar e que tantas vezes me deu transtornos antes de conhecer o Sr. Durães.
Acho que prefiro comprar uma bicicleta, do que pressentir que algum dia terei de me cruzar e entregar as minhas preocupações a alguém que acredito nunca poder estar à altura do Durães…ou dos Antónios.

Poderia dar mais alguns exemplos dos meus heróis imprescindíveis, que me fazem esquecer de todos os outros anónimos incompetentes, antipáticos e desonestos que já passaram pela minha vida e, infelizmente, deleguei as minhas mais simples e até por vezes complexas preocupações ou ambições.

Se eu pudesse… coleccionava heróis.

Poderá parecer sinistro presumir que ficarei a assistir ao sumiço de todos os meus heróis, um após o outro, antes de mim.
Quanto a isso, prefiro pensar que se me for primeiro, não sentirei a sua perda…

Pois assim como assim, “Não é realmente mau que as coisas se vão, apenas lei da vida. Ao fim e ao cabo, acabamos por irmo-nos com elas, como deve ser. O triste seria não nos darmos conta de que se vão, ‘se realmente as vivermos olhamos então para trás e comprovamos efectivamente que as perdemos’.”

Dedicado a todos os vossos heróis.

Sem comentários: