O valor das coisas
Adivinhava-se-lhe no rosto de criança a ansiedade que sentia. De mãos coladas e narizito esborrachado contra a vidraça da montra, imóvel, olhar ávido e atento na imensidão daquele universo doce, perdido algures entre os lugares do sonho e da realidade, ia reproduzindo expressões, demonstrando emoções que só a condição humana pode eficazmente traduzir.
No instante seguinte recuou, deambulou aquele olhar imenso ao seu redor sem nada desejar ver, numa atitude visível de pura insatisfação e entrou na loja decidido.
Momentos depois, saiu com a mais bela expressão da felicidade estampada no seu rosto pequenino.
Num salto atravessou a rua e acocorou-se com a comodidade possível, encontrada por hábito, na laje fria do passeio.
Sôfrego, a boca enlambuzada pelo creme e açúcar fino, olhar arregalado sobre o pastel aberto à sua frente e contemplado com desejo, ali estava ele, transbordante de satisfação, distraído de tudo e de todos e da vida frenética que rodopiava à sua volta como se ao momento, o seu verdadeiro tesouro, agora semi-desfeito entre aqueles guardanapos macios estivesse......... naquela bola de Berlim.
texto: esparadrapo

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