quarta-feira, 7 de abril de 2004

...enquanto caminhava....lembrei que ainda...é Abril...e que Sophia já tem uma escola com o seu nome...

Abril





Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

...e que...tenho que ir comprar areia para a gata...e fazer de jantar...




...de repente lembrei das telas de Cândido Portinari...

...que aquecia...gaivotas...e não só...

...e o sol tinha olhar de laranja...

...um papagaio...de papel também andava pertinho do céu...



...que também tinha bonecas...que tanto gosto...

...um peixe...igual ao meu... a enfeitar uma montra...

...um gato amarelo...

...hoje vi um melro...

Folar de Páscoa



Ingredientes:

1 kg de farinha
30 gr de fermento de padeiro
1 dl de água morna
400 gr de açúcar
2 ovos
2,5 dl de leite quente
50 gr de manteiga
sal
raspa da casca de 2 limões
ovos cozidos com casca de cebola
Confecção:

Peneira-se a farinha para uma tigela, faz-se uma cova no meio e deita-se aí o fermento esfarelado, que se rega com água morna.
Cobre-se o fermento com um pouco de farinha, envolve-se a tigela num pano de flanela ou cobertor e deixa-se levedar cerca de 15 minutos.
Depois, mistura-se a farinha com o fermento, juntam-se o açúcar, os ovos, um a um, mexendo sempre, e o leite morno, no qual se derreteu a manteiga, o sal e a raspa dos limões.
Amassa-se tudo vigorosa e longamente.
Abafa-se a massa novamente e deixa-se levedar perto de uma fonte de calor pelo o menos 2 horas.
Retira-se a massa em bocados, a que se dá uma forma redonda, dobra-se ao meio e, com os dedos passados por azeite, molda-se em forma de ferradura.
À medida que se vão tendendo, dispõem-se em tabuleiros, deixando os folares crescerem.
Na altura de irem ao forno, enterram-se os ovos cozidos na massa (um, dois, ou três por folar).
Levam-se a cozer em forno bem quente (220ºC) durante 15 a 20 minutos.

Dez anos depois...



Repórter relembra horror do genocídio em Ruanda

Mark Doyle
repórter da BBC em Ruanda em 1994



Dez anos depois, o país ainda está vendo a Justiça ser feita
As memórias continuam nítidas na minha cabeça, como um filme com clareza digital que começa com o corpo de uma adolescente na região central de Kigali, em algum ponto entre o Hotel Mille Collines e o hospital da Cruz Vermelha.
Ela vestia um vestido azul quando foi assassinada, junto com toda a família, em um posto de controle na rua.

Eu sei que foi a milícia pró-governo que cometeu o crime porque duas horas antes eu tinha atravessado o mesmo posto de controle na base da conversa, e o corpo dela não estava lá.

O filme passa, quadro a quadro.

Há um antigo conjunto habitacional no norte que foi transformado em quartel-general do movimento rebelde RPF. Lá do alto dos prédios, no topo de um morro, pode-se ver uma plantação de chá abandonada.

'Mar plácido'

As folhas de um verde intenso não foram colhidas há anos e contrastam com o verde mais escuro dos arbustos que as cercam. O contraste entre as duas tonalidades é tão forte e preciso que o campo parece um plácido mar verde.

De volta a Kigali, posso ver as ruas vazias cobertas por andrajos abandonados. Também posso sentir aquele cheiro horrível.

Aquele cheiro adocicado nauseante que te faz ter ânsias de vômito e querer voltar atrás, mas que você sabe, como jornalista, que tem que investigar – ainda que por pouco tempo.

Afinal, há um limite para o número de corpos que você quer ver.

No estacionamento das derrotadas forças de paz das Nações Unidas, posso ver as carcaças de dois transportes de tropas blindados no portão.

Abandono

As tropas da ONU são poucas demais, não têm equipamentos necessários e foram mais ou menos abandonadas pelo Conselho de Segurança em Nova York.

No entanto, um punhado obstinado de soldados de paz insiste. Posso ver um capitão africano desdentado atravessar o estacionamento apressadamente e entrar no prédio, com uma pilha de mapas debaixo do braço, o distintivo azul-claro da ONU contrastando com o verde-oliva da farda.

Minutos depois, o capitão sai correndo do prédio mais uma vez e dá início a mais uma das suas dezenas de missões para localizar e salvar pessoas encurraladas pela batalha ou visadas por assassinos, trancadas em casa.

O nome do jovem capitão africano é Mbaye Diagne, do Senegal. Ele morreria em breve debaixo do fogo de morteiros.

Ainda posso ver o sangue dele no carro, minutos depois da sua morte.

Dente de ouro

Posso ver o dente de ouro do homem que reinou brevemente como presidente interino de Ruanda, Theodore Sindikubwabo. Ele está conversando comigo em uma escola profissionalizante abandonada em Gitarama, uma hora de carro a oeste de Kigali.

Os remanescentes do governo fugiram pouco antes da chegada do RPF e ele diz que tem a situação sob controle.

"É um problema étnico, vamos derrotar o inimigo", afirma repetidas vezes o presidente. Eu relato o que ele diz.

De volta à capital, sentado na cobertura do prédio da ONU, posso ver, além do vale, o recém-construído prédio do Parlamento. A luz é boa, a imagem, nítida.

Mas não vejo o arco descrito pelos morteiros no céu. Ouço apenas a explosão, nas proximidades do Parlamento, e me encolho.

Vidas a salvar

"Você nem viu eles chegarem, hein?", diz, ao meu lado, o general Romeo Dallaire, comandante das forças da ONU.

Junto com algumas centenas de soldados de paz, ele decidiu ficar em Ruanda para tentar salvar quantas vidas conseguisse.

Sentado naquela cobertura, entro em piloto automático e entrevisto Dallaire. A verdade, entretanto, é que uma muralha sonora nos alcança, do subúrbio de Nyamirambo.

"Armas de pequeno calibre. Muitas delas", diz Dellaire.

Armas de pequeno calibre? Pequeno calibre? Rifles e pistolas não têm este som. Deveria-se ouvir cliques e zumbidos de vez em quando. Não esse trovão constante e ensurdecedor.

"É", diz Dallaire com seu sotaque canadenese, "um montão delas".

Rotunda

Posso ver as filas dos caminhões brancos da ONU se encontrando na rotunda central de Kigali. Uma das filas carrega tutsis e hutus moderados que se opõem ao governo.

A outra fila saiu do estádio de futebol de Amahoro e leva hutus. Observadores desarmados da ONU estão sobre os caminhões supervisionando a troca de prisioneiros.

Milhares de pessoas tiveram as suas vidas salvas dessa forma. Milicianos armados do governo cercam os tutsis, querendo matá-los.

Posso ver Dellaire me descrevendo o seu plano em outra entrevista, dessa vez no escritório dele. Ele veste um uniforme castanho-claro canadense com distintivos azuis da ONU.

"Cinco mil e quinhentos soldados. Acho que posso salvar muitas pessoas. Me dê 5,5 mil soldados e eu dou segurança a todas as igrejas e estádios de futebol", diz o general.

Tarde demais

O Conselho de Segurança aprova o envio de tropas, mas elas, evidentemente, não chegam a tempo.

Dos cinco membros permanentes do conselho, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não querem um compromisso maior e se opõem ativamente ao plano de Dallaire.

Os franceses têm o seu próprio plano. Os russos e os chineses estão em cima do muro.

O último quadro do meu filme se passa em Gisenyi, na fronteira do antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo.

Gisenyi está inundada de engradados de cerveja por causa do saque da cervejaria local.

Fim da guerra

Um comandante do RPF, forte e alto, sai da cidade enfumaçada e se apresenta como Bruce Munyango. Ele não tem um dos dedos da mão direita.

Sou levado para a fronteira para que eu veja que a última grande cidade está agora sob controle do RPF.

No dia seguinte, o comandante do RPF, Paul Kagame, me diz que a tomada de Gisenyi significa que ele ganhou a guerra. Não parece uma vitória, entretanto.

O RPF pode ter ganhado a guerra dos tiros (entre exércitos), mas perdeu a guerra do genocídio (entre povos).

Enfim, ajuda

Ruanda cheira a corpos em putrefação por quase todos os lugares onde se vá.

Em Gisenyi, olho atrás da cerca de arame farpado e vejo vários aviões de carga chegando da Europa.

Eles estão pousando na cidade de Goma, no Zaire, e trazem tropas de paz, comida e remédios para ajudar os cerca de meio milhão de refugiados que deixaram Ruanda.

Tropas de paz, comida e remédios. Muito pouco, muito tarde e no lugar errado.


Reencontro
Álbum de fotos reúne famílias separadas pelo genocídio.




Dez anos depois
Ruanda busca justiça para cicatrizar feridas de genocídio.




Sobrevivente
'Corpos caíram em cima de mim', conta parente de vítimas.


Genocídio
'Fomos tomados por Satã', diz um dos assassinos.

terça-feira, 6 de abril de 2004

...um pouquinho dos escolhidos para a mesinha de apoio à luz do silencio...por entre lençois...e cobertores quentes...


...O médico da aldeia Mário Figueira fazia clínica noutras terras e quando fomos visitá-lo soubemos que ele iria a uma aldeia sobranceira - poderíamos ir com ele até lá? e enquanto fazia a sua clínica, nós subíamos até ao cimo. E assim foi. Com a tua vivacidade determinação subias à minha frente rápida e leve. Eu sigo atrás um pouco surpreso e amedrontado da tua ligeireza imprudente. Não te apresses, sobe mais devagar. A certa altura vimos um pequeno ribeiro que descia pela encosta - pára, disse-te eu. E então debrucei-me e bebi, uma água fresca e de uma pureza natural. Bebe também, disse-te. Tu hesitaste. Mas por fim ajoelhaste e mergulhaste na água que te ficou a escorrer da boca, da face. E chegados ao alto, sentámo-nos a olhar a distância do mundo. Onde estávamos. Onde estou. Sentados ouvíamos passar um vento, digamos de solidão, vento genesíaco. Sentia-me fora do tempo, sentia que nós eramos os únicos habitantes sobre a Terra. E então irreprimivelmente quis beijar-te, abraçado contigo. E deu-se um caso estranho em ti. Porque sem uma hesitação te preparaste sumariamente para nos amarmos. E eu senti-me interdito porque não era isso que pretendia - lembras-te de um certo passeio que fizemos um dia de bicicleta no Sul? quis amar-te e tu disseste cortante isso não. Mas eu estremeci e amámo-nos longamente no deserto da montanha. E tu aceitaste a minha invasão e vibraste comigo num espasmo de prazer e de susto, não sei bem. Era a nossa comunhão com a Terra, com o universo, e o nosso amor entrava assim na ordem das esferas, das constelações. E imaginas como sofro agora só de lembrar? Como te amo. Te quero. Pudesse ao menos na minha memória doente recuperar o que tant.......

Vergílio Ferreira
Cartas a Sandra

sapatos de verniz -http://www.femininoplural.com.br/fogo/lenda/sapatoensina.html

O QUE A LENDA
NOS ENSINA



Nossas habilidades criativas nos permitem concretizar nossos reais desejos



Vamos pensar um pouco sobre a história da menina e seus sapatinhos. Ela começa mal, mas não tão mal assim. Afinal, apesar de ser extremamente pobre e de não ter ninguém, a menina tem uma grande fonte de felicidade - os seus lindos sapatinhos vermelhos, que ela mesma fez de trapos.

O que são esses trapos? São as habilidades criativas que todas nós, mulheres, temos. Com elas construímos nossas melhores obras, concretizamos nossos maiores desejos.
Mas, as vezes, cedemos ao apelo da sociedade, e abandonamos o que nos é mais caro pelo que os outros consideram importante. Foi o que fez a menina, ao aceitar ir morar com a velha senhora. Ela abandonou a sua vida modesta em troca de uma nova vida com dinheiro e conforto.

Abandonar o que realmente se quer por aquilo que se pensa querer, ou que os outros querem para nós tem um custo alto. Foi o que aconteceu com a menina. Quando percebeu, até os seus queridos sapatinhos tinham sido queimados.



Quem abandona
o que é, vive atrás
de sapatos de verniz A partir daí, era de se esperar que as coisas não corressem bem. Quem abandona o que construiu, quem abdica de suas habilidades, irá necessariamente sofrer. E tentará encontrar coisas que substituam aquilo que abandonou.

Após algum tempo de uma vida tediosa, a menina se defronta com algo que se assemelha aos seus sapatos originais - os sapatos que vê na loja do sapateiro. Imediatamente, se encanta com eles.

Por que ela os quer de forma tão intensa? Porque a fazem lembrar de seus sapatinhos vermelhos, e ela os quer de volta. Ela quer de volta a sua alma, a sua capacidade de criar. Mas aqueles não são os seus sapatinhos, e ela os irá usar mal e nas ocasiões erradas.

A cada erro, ela é advertida. Mas não ouve, e prossegue no caminho que, no final, irá levá-la à desgraça total - a de ter que cortar os seus pés.

Pense bem, quantas mulheres você conheceu que eram criativas, inteligentes, admiráveis, e abriram mão disso tudo para atender aos desígnios da sociedade? Quantas casaram porque "todo mundo casa", tiveram filhos "porque é o certo", deixaram suas carreiras de lado "porque era necessário"? Essas são as meninas que, mais cedo ou mais tarde, estarão dançando com os sapatinhos vermelhos errados.

E os sapatinhos serão sempre algo que parece que trará a felicidade, mas que não traz. Serão o regime que as fará bonitas e que trará o desejo do marido de volta, serão o o vestido que fará com que chamem a atenção na festa, serão o amante que trará o sentimento de felicidade que há muito tempo falta em suas vidas.

Reencontrar os
próprios sonhos
é a única forma
de escapar do truque
dos sapatos de verniz Mas não é nem preciso levar a coisa a esses extremos. Todas nós temos nossos sapatinhos vermelhos de verniz. Quando abrimos mão de nossos desejos para atender aos de todas as outras pessoas da família, do trabalho ou da sociedade, estamos preparando o terreno para que surjam perigosos sapatinhos vermelhos de verniz, substitutos que não irão suprir as nossas necessidades mais íntimas.

Felizmente, todas nós temos, dentro de nós, os nossos trapinhos vermelhos, que permitem que façamos os nossos próprios sapatinhos. E a história nos alerta - veja bem, não abra mão do seu destino e de seus desejos, obras e qualidades, ou estará condenada a dançar com os sapatos alheios até ter que cortar os pés...

segunda-feira, 5 de abril de 2004

Andei toda a noite por essas ruas a sofrer o problema da Liberdade

Quero voar
- mas saem da alma
garras do chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
- mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
- tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento
me parece liberdade.)

José Gomes Ferreira

O Galo



O galo é conhecido como emblema da altivez — o que é justificado pela postura do animal — e como emblema da França. Mas trata-se de uma noção recente, sem valor simbólico, fundada no duplo sentido da palavra gallus = 'galo' e 'gaulês'. A ave aparece, ao lado de Mercúrio, em algumas representações figuradas galo-romanas. Aparece também em moedas gaulesas. Mas os romanos fizeram um jogo de palavras entre gallus, 'galo' e Gallus, 'gaulês', como já foi dito. Essa a origem do coq gaulois, cujo valor simbólico tradicional é quase nulo (CHAB, 628-651). O caráter do galo e o do francês não deixam de ter, porém, do ponto de vista simbólico, um certo parentesco.

O galo é, universalmente, um símbolo solar, porque seu canto anuncia o nascimento do sol. Por isso, os hindus consideram-no atributo de Skanda, que personifica a energia solar. No Japão, seu papel é importante, pois seu canto, associado ao dos deuses, fez sair Amaterasu, deusa do Sol, da caverna onde se escondia, o que corresponde ao nascer do Sol, à manifestação da luz. É por isso que, no recinto dos grandes templos xintoístas, galos magníficos circulam em liberdade; no templo de Ise criam-se galos sagrados. Uma homofonia duvidosa faz, por vezes, considerar os toril dos templos xintoístas como tendo sido, originariamente, poleiros para os galos.

A virtude da coragem, que os japoneses atribuem ao galo, lhe é atribuída também em outros países do Extremo Oriente, onde o galo tem papel especialmente benéfico: primeiro porque o sinal que o designa em chinês (Ki) é homófono do que significa 'bom augúrio', 'favorável'. Depois, porque seu aspecto geral e seu comportamento fazem-no apto a simbolizar as cinco virtudes: as virtudes civis, uma vez que a crista lhe confere um aspecto mandarínico; as virtudes militares, devido ao porte de esporas; a coragem, em razão do seu desempenho em combate (nos países onde a briga de galos é esporte particularmente apreciado); a bondade, por dividir sua comida com as galinhas; a confiança, pela segurança com que anuncia o nascer do dia.

E por anunciar o sol ele tem poderes contra as influências maléficas da noite. Ele as afasta das casas se os proprietários têm o cuidado de pôr sua efígie na porta. No Vietnã, o pé de galo cozido é a imagem do microcosmo e serve para a adivinhação.

No budismo tibetano, o galo é, no entanto, símbolo excepcionalmente nefasto. Figura no centro da Roda da Existência, associado ao porco e à serpente, como um dos três venenos. Seu significado é o desejo, o apego, a cobiça, a sede. Convém lembrar que, na Europa, ele é tomado, ocasionalmente, como símbolo da cólera, explosão de um desejo desmesurado — e contrariado. (DURV, GOVM, HUAV, PALL).

Segundo as tradições helênicas, o deus dos galos dos cretenses, Velchanos, é assemelhado a Zeus (SECG, 10). O galo se encontrava junto de Leto (Latona), engravidada por Zeus, quando ela deu à luz Apolo e Ártemis. Assim, ele é consagrado simultaneamente a Zeus, a Leto, a Apolo e a Ártemis, i.e., aos deuses solares e às deusas lunares. Os Versos de Ouro de Pitágoras recomendam, em conseqüência: alimentai o galo e não o imoleis, porque ele é consagrado ao Sol e à Lua.

Símbolo da luz nascente, ele é, portanto, um atributo particular de Apolo, o herói do dia que nasce.

Apesar do conselho atribuído a Pitágoras, um galo era sacrificado ritualmente a Asclépio (Esculápio), filho de Apolo, e deus da medicina. Sócrates lembrou a Críton, pouco antes de morrer, que cumpria sacrificar um galo a Asclépio. Sem dúvida, deve-se ver nisso um papel de psicopompo atribuído ao galo; ele iria anunciar no outro mundo o advento da alma do defunto, e conduzi-la até lá. A alma abriria os olhos a uma nova luz, o que equivalia, a um novo nascimento. Ora, o filho de Apolo era, precisamente, esse deus, o qual, com seus remédios, operara ressurreições neste mundo, prefiguração dos renascimentos celestes. Pelo mesmo motivo, o galo era o emblema de Átis, o deus solar, morto e ressuscitado, no quadro das divindades orientais. Esse papel de psicopompo explica também que o galo seja atribuído a Hermes (Mercúrio), o mensageiro, que percorre os três níveis do cosmo, dos Infernos ao Céu. Sendo Asclépio, cumulativamente, um herói curador, antes de torna-se deus, acreditava-se, acreditava-se que o galo curava as doenças.


Figura, com o cão e o cavalo, entre os animais psicopompos sacrificados (oferecidos) aos mortos nos ritos funerários dos antigos germanos (KOPP, 287).

Por ocasião das cerimônias de purificação e de expulsão dos espíritos que se seguiam à morte de alguém, certos povos altaicos usavam o galo para representar o defunto. Amarrado ao pé do leito mortuário, era expulso pelo xamã (HARA, 229).

Nas tradições nórdicas, o galo é, ainda, um símbolo de vigilância guerreira. Ele perscruta o horizonte dos mais altos galhos do freixo Yggdrasil a fim de prevenir os deuses quando os gigantes, seus eternos inimigos, se preparem para tacá-los (MYTF, 12, 44). Mas o freixo*, árvore cósmica, é a origem da vida. O galo, que vela no seu píncaro, como no alto da flecha de uma igreja, aparece, assim, como o protetor e guardião da vida.

Os índios pueblos fazem do seguinte modo a associação galo-sol: O avô dizia que as galinhas eram criaturas do deus Sol. É importante, dizia ele, o canto dos galos de madrugada.O Sol os pôs aqui para acordar-nos. Ele próprio avisa os galos com um sininho, para que eles cantem quatro vezes antes do dia (autobiografia do chefe hopi Don C. Talayesva, TALS, 47). Esse exemplo acentua, por um lado, a função simbólica do quinário: o galo canta quatro vezes, depois o dia nasce, no quinto tempo, que é o do centro e o da manifestação (v. cinco*).

Na África, segundo uma lenda dos peúles, o galo está ligado ao segredo. As atitudes, os atos e as metamorfoses do galo correspondem às diferentes espécies de segredos: um galo numa gaiola significa o segredo guardado em silêncio; um galo no pátio (metamorfoseado em carneiro), segredo divulgado aos próximos e íntimos; um galo na rua (metamorfoseado em touro), segredo divulgado e público; um galo nos campos (metamorfoseado em incêndio), segredo comunicado ao inimigo, causa de ruína e desolação (HAMK, 68). Para os azandés, essa presciência do dia (Ele vê a luz do dia no interior dele mesmo) valia ao galo uma certa suspeição de feitiçaria (EVAS).

O galo também é um emblema do Cristo, como a águia* e o cordeiro*. Mas, nele, a ênfase recai no seu simbolismo solar: luz e ressurreição.

Já em Jô (39, 36), o galo é o símbolo da inteligência recebida de Deus, que deu ao íbis a sabedoria de Jeová e deu ao galo a inteligência. Às duas aves foi dada também uma faculdade de previsão: o íbis anuncia infalivelmente as cheias do Nilo; o galo, o nascer do dia. Como o Messias, o galo anuncia o dia que sucede à noite. Figura, também, no mais alto das flechas das igrejas e das torres das catedrais. Essa posição, no cimo dos templos, pode evocar a supremacia do espiritual na vida humana, a origem celeste da iluminação salvífica, a vigilância da alma atenta para perceber, nas trevas da noite que morre, os primeiros clarões do espírito que se levanta. O galo dos campanários proviria, segundo Durand (DURS, 155), da conformidade do galo que anuncia o dia com o Sol no pensamento mazdeísta. O Talmud faz do galo um mestre de polidez, sem dúvida porque ele apresenta seu senhor, o Sol, anunciando-o com o seu canto.

No Islã, o galo goza de uma veneração sem igual em relação aos outros animais. O Profeta em pessoa dizia: o galo branco é meu amigo. Ele é o inimigo do inimigo de Deus... Seu canto assinala a presença do anjo.

Atribui-se, igualmente, ao Profeta a proibição de maldizer o galo que convida à oração. Maomé lhe teria conferido uma dimensão cósmica. Dentre as criaturas de Deus, teria dito ele, há um galo cuja crista está debaixo do trono, os pés assentados na terra inferior, e as asas no ar. Quando passarem dois terços da noite e só restar um terço a passar, ele bate as asas e diz: Louvor ao rei santíssimo, digno de exaltação e de santidade, i.e., que não tem associado. Nesse momento, todos os galos cantam (FAHN, 505).

O galo é muitas vezes comparado à serpente, no caso de Hermes e Asclépio principalmente. Na análise dos sonhos, a serpente e o galo são, todos dois, interpretados como símbolos do tempo. Pertencem ambos, ao deus médico Esculápio (Asclépio), que era, provavelmente, uma encarnação da vida interior e psíquica. Era ele quem enviava os sonhos. (TEIR, 160).

Marcam uma fase da evolução interior: a integração das forças ctonianas ao nível de uma vida pessoal, onde espírito e matéria tendem a equilibrar-se numa unidade harmoniosa.

Como símbolo maçônico, o galo é, ao mesmo tempo, o signo da vigilância e o do advento da luz iniciática. Corresponde ao mercúrio alquímico.


* In Dicionário de Símbolos, 457-459, José Olympio Editora, 7ª edição, Rio de Janeiro, 1993.

domingo, 4 de abril de 2004

http://atelier.hannover2000.mct.pt/~pr584/urze.htm



A Urze
Erica sp.

A Urze ou Queiró é um arbusto rasteiro, lenhoso, podendo atingir 1m de altura e o seu porte é arbustivo.

A Urze distingue-se das outras espécies similares pelo facto de as pétalas não se unirem.

O caule é lenhoso e sinuoso.

As folhas persistentes são aciculares, opostas, encostadas ao caule, justapondo‑se aos rebentos laterais que são curtos.

As flores, com uma tonalidade arroxeada, apresentam-se em cachos sensivelmente unilaterais, campanulada, compostas por quatro pétalas envolvidas em quatro sépalas verdes.

Os frutos são cápsulas esféricas.

Floresce de Julho a Outubro.

Aparece um pouco por toda a Europa, em charnecas, bosques não muito densos. Prefere terras áridas e incultas com pouco calcário.

A Urze serve de repasto às abelhas de onde extraem um delicioso mel e, das suas raízes, fabricam-se belos cachimbos.

Como planta medicinal, são utilizadas as folhas em infusão no tratamento de cálculos renais, no combate às insónias e no alívio do reumatismo e da artrite.

avó...querida avó e madrinha...MARIA...mulher de luta...



....envio para ti um grande ramo de urze que apanhei no monte do meu carinho....e dor pela tua saudade...vou desfolhar ao vento......e esperar em silêncio....o prazer de te sentir sorrir...para mim e para os teus jardins preferidos....

....onde estiveres...eu sei que vais gostar minha querida MARIA...

sábado, 3 de abril de 2004

Salgueiro Maia



SALGUEIRO MAIA

Militar, capitão de Abril: 1944-1992

Carlos Loures



GRÂNDOLA, VILA MORENA...
QUANDO TUDO ACONTECEU...

1944: Em 1 de Julho, nasce em Castelo de Vide, Fernando José Salgueiro Maia, filho de Francisco da Luz Maia, ferroviário, e de Francisca Silvéria Salgueiro. Frequenta a escola primária em São Torcato, Coruche. Faz os estudos secundários em Tomar e em Leiria. - 1945: Termina a 2ª Guerra Mundial. - 1958: Eleições presidenciais. Delgado é «oficialmente» derrotado por Américo Tomás. - 1961: Começa a guerra em Angola. A Índia invade os territórios portugueses de Goa, Damão e Diu. - 1963: Desencadeiam-se as hostilidades na Guiné e em Moçambique. - 1964: Salgueiro Maia ingressa em Outubro na Academia Militar, em Lisboa. - 1965: Humberto Delgado é assassinado pela PIDE. - 1966: Salgueiro Maia apresenta-se na EPC (Escola Prática de Cavalaria), em Santarém para frequentar o tirocínio. - 1968: Integrado na 9ª Companhia de Comandos, parte para o Norte de Moçambique. - 1970: É promovido a capitão. - 1971: Em Julho embarca para a Guiné. - 1973: Regressa a Portugal, sendo colocado na EPC. Começam as reuniões do MFA. Delegado de Cavalaria, faz parte da Comissão Coordenadora do Movimento. - 1974: Em 16 de Março, «Levantamento das Caldas». Em 25 de Abril, comanda a coluna de carros de combate que, vinda de Santarém, põe cerco aos ministérios no Terreiro do Paço e força depois, já ao fim da tarde, a rendição de Marcelo Caetano no Quartel do Carmo. - 1975: Em 25 de Novembro sai da EPC, comandando um grupo de carros às ordens do presidente da República. - 1979: Após ter sido colocado nos Açores, volta a Santarém onde comanda o Presídio Militar de Santa Margarida. - 1984: Regressa à EPC. - 1989-90: Declara-se a doença cancerosa que o irá vitimar. É submetido a uma intervenção cirúrgica. - 1991: Nova operação. A última. -1992: Morre em 4 de Abril.


quinta-feira, 1 de abril de 2004

hoje...especial...misturado com enganos selvagens e divinos...



...

...hoje havia cravos nas janelas em vasos pintados de barro
...hoje as janelas além dos cravos também tinham muitos sorrisos doces
...hoje ouvi muitos bons dias com sabor adocicado com ternura, mexido com colher de conto de fadas
..hoje os autocarros cheiravam a perfumes de rostos gratos por estar aqui não se pagava bilhete e toda a gente podia cantar e acompanhar o motorista que conduzia a sua guitarra
...hoje não houve fome aqui no porto, houve fruta e sopa para todos
...ninguém se drogou
...ninguém teve apetite de saltar da ponte, tomar umas pastilhas
...que eu saiba ela a dita ponte também não caíu
...não houve culpas a apontar a "gente" nem julgamentos
...também hoje ninguém bateu em ninguém
...nenhum homem
...nenhuma mulher
...foi infiel
...foi comprada uma flor chamada quimera em simbiose perfeita
...não houve corruptos nem corrompidos
...não houve qualquer caso de pedofilia
...não houve cobertores de cartão em cima de qualquer ser num canto de porta
...ninguém se preocupou com contas que secavam em fios pendurados com molas de espera
......não ...nada fechou...nem uma empresa nem uma fábrica
...tudo foi declarado às finanças
...havia muitas casas e muitos lugares oferecidos para se fazer uma cabana daquelas dignas de filme
...havia luz em todo o lado e água potável
...livros dados em todas as esquinas
...e as crianças ...tinham bonecas de trapos e carrinhos de encantar e sobiam em balões coloridos até ao sol
...a chuva até cheirava a alfazema e o vento não estava cansado pelo peso do casaco de cor poluída
...não havia buracos nas ruas....nem o do ozono
...toda a gente pagou as rendas que se tinham esquecido na preocupação do não ter
....os hospitais estavam vazios porque não havia doentes em filas para morrer antes do esperar...os corredores respiravam saúde e boas maneiras
....tudo foi planeado para o amanhã
.... hoje foi....tanto....tudo....
...hoje toda a gente vai ter ceia com lareira e velas com sabor a música e dançar pela noite dentro assobiando esperanças



...é verdade hoje é dia 1 de Abril