quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

-Me diga uma coisa.Todo o mundo sabe que você fala?

- Não. Só você.
- Verdade?
- Posso jurar. Uma fada me disse que quando um menininho igualzinho a voçê ficasse meu amigo, que eu í a falar e ficar muito feliz.
- E voçê vai esperar?
- O quê?
- Até eu me mudar. Vai demorar mais de uma semana. Será que que voçê não vai esquecer de falar nesse tempo?
- Nunca mais. Isto é, para você só. Você quer ver como eu sou macio?
- Como é que...
- Monte no meu galho.
Obedeci.
- Agora, dê um balancinho e feche os olhos.
Fiz o que mandou.
- Que tal? Você alguma vez na vida teve um cavalinho melhor?
- Nunca é uma delícia. Até vou dar o meu cavalinho Raio de Luar para meu irmão menor. Você vai gostar muito dele, sabe?

Desci adorando o meu pé de laranja lima.

((José Mauro de Vasconcelos)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

O LEITOR (Bernhard Schlink)

Para a lolita, no Natal de 2003, um livro de que gostei muito...
Gena

...
Quando nos abrimos
tu a mim e eu a ti,
quando mergulhamos
tu em mim e eu em ti,
quando perecemos
tu em mim e eu em ti.

Apenas então
eu sou eu
e tu és tu.

________

domingo, 28 de dezembro de 2003

gavetas...minhas doces...e divinamente selvagens...de ternuras...

?.Como já são 4,45 da madrugada e a noite está caliginosa e fria ocorre-me dizer-lhe que é tão bom acreditar que a mulher é um produto biológico incomparável, património da terra, rainha do indizível, raiva e loucura, enigma e mistério.

A.F
1997

PORQUINHO-DA-ÍNDIA

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Manuel Bandeira

sábado, 27 de dezembro de 2003

O MEU PÉ de LARANJA LIMA

...
ÚLTIMO CAPÍTULO
A CONFISSÃO FINAL

Os ANOS SE PASSARAM, meu caro Manuel Valadares.
Hoje tenho quarenta e oito anos e às vezes na minha saudade eu tenho impressão que continuo criança. Que voçê a qualquer momento vai me aparecer me trazendo figurinhas de artista de cinema ou mais bolas de gude. Foi você, quem me ensinou a ternura da vida , meu Portuga querido. Hoje sou eu que tento distribuir as bolas e as figurinhas, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa. às vezes sou feliz na minha ternura, às vezes me engano, o que é mais comum.
Naquele tempo. No tempo do nosso tempo, eu não sabia que muitos anos antes, um Príncipe idiota ajoelhado diante de um altar perguntava aos ícones, com os olhos cheios d`água:

"POR QUE CONTAM COISAS ÀS CRIANCINHAS?"

A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.

Adeus!
_________________________________Ubatuba, 1967

QUIM (também conhecido...e apelidado muito carinhosamente de bandido...)


...
A competição com os seus iguais é dura e implacável, vive-se sempre com o medo de uma série impiedosa de bicadas que podem causar a morte, mesmo no próprio território...Claro que as gaivotinhas grandes já aprenderam a defender-se e adultas já atingem a plena capacidade de voo e portanto podem facilmente esconder-se dos inimigos e dos maus...

continua :))

sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

AMERICANA

Pérola...voz...de pérola...2002 (cont.)
.............(...e um pouco de história...e mito...)


Ontem!...
...estava vazia...
...cheia de ti...

e

com tanto de ti... e falta de ti...

e
desabafei...

contigo...

........................a palavra vazio...................

Pérola...

de nome

JORGE (do grego Gheorghios)-cultivador de terras
(S. Jorge, lendário mártir-sec. IV-venerado na idade média)

mito

vencedor do mal...

protector

dos umbandistas...
e no candomblé..

minha pérola...

sabias?

que a lenda.............................a história.............

conta

que Cleópatra...

“...para provar a Marco António “quão” poderoso era o Egipto lhe propôs uma aposta: iria servir-lhe o banquete mais caro de todos os tempos, sentados à mesa ela tirou um dos seus brincos, uma imensa pérola, esmagou-a e dissolveu-a no vinho bebendo-a a seguir. Entregou a outra a Marco António e obrigou-o a fazer o mesmo. Estarrecido com a coragem de Cleópatra concedeu-lhe a vitória sem nenhum constrangimento...”

e

COCO CHANEL (...que tanto veneras...)

teu outro pseudónimo...

sempre pérola
lágrima do mar

meu sutrama..(cadeia dos penetrados e
Atma, o Espirito
unidos por Universal)

COCO CHANEL

...dizia eu...

...nos anos 20

sofisticadamente...
inteligentemente...

através de ti pérola...

...Chanel...

...toda a moça
tratava de enrolar-se
em várias
carreiras
de pérola
que funcionavam como echarpe...

e

tu
pérola

também protectora
dos mergulhadores
contra os tubarões...
e mais...minha pérola...

“...a muralha era construída de Jaspe e a cidade de ouro puro... as doze portas eram doze pérolas e cada porta era feita de uma só pérola...” (S. João, Apocalipse, 21, 18-22 – Descrição de Jerusalém Celeste)

...e
eu
tu
que às tantas
e afinal
sentias!?...
o mesmo...
meu vazio...

...
o colar
não estava fechado...

e

através da tua...

voz...
o fecho apertou...

colar

embora o seu principio estivesse tão longe... a primeira pérola...tão longe da Segunda...última pérola... do seu fim...

e fosse
difícil

sentir
as pérolas
juntinhas...

...ao corpo...
...aos corpos...

a enfeitar...
a ternura
a enfeitar...
o amor

mas mesmo assim e apesar de tudo...
foi bom rezar...
e
ouvir-te
rezar...
este terço
de pérolas...

o vazio
deixou lugar
a um outro sentir...

outro
nascimento...
e
a habituação
a um
novo ser...
...estranha a voz de pérola...
como o primeiro choro
do filho...
no regaço
de mãe
e o conflito
do novo ser...
com este ser...
passe
a
ser
nosso...
sem ainda
se saber nada
se conhecer...
lentamente
aprende-se
a sentir
a ouvir
a amar...
e

deixar

...o instinto...

acontecer...

Rita Ariz

Pensamentos

25- Alguém comete uma falta contra mim? É o seu papel. É o temperamento, é o feitio. Quanto a mim, tenho agora o que a natureza universal quer que tenha e faço o que a minha natureza quer que faça neste momento.

Marco Aurélio

quarta-feira, 24 de dezembro de 2003

Antônio Maria


Dezembro é o mês de uma infinidade de frases, que se repetem em todos os anos, sempre as mesmas. Vamos lembrar algumas, que estão sendo ditas, desde o dia 1º.:

"O ano passou num abrir e fechar de olhos"

"Você reparou quanta gente conhecida morreu este ano?"

"E todas quando a gente menos esperava"

"Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor"

"Pois eu, minha filha, não tenho nada que me queixar. Luís Mário passou de ano"

"Nunca houve um ano tão ruim para negócios"

"Vocês já viram quanto está custando um quilo de castanhas?"

"Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada. Mas, se você quiser aparecer lá em casa, com as crianças, só nos dará prazer"

"Eu tenho horror a datas... se não fossem as crianças..."

"Natal de pobre é no dia 26"

"Se o Dagoberto não estivesse tão atropelado,eu ia pedir para ir, com as crianças, passar Natal nos Estados Unidos"

"Olhe, Daniel, como eu sei que os seus negócios não vão bem, vou deixar os brincos de e esmeraldas para o ano que vem"

"Mamãe, o Luís Otávio falou que Papai Noel é o pai da gente"

"Olhe, se você não comer o ovinho todo, Papai Noel vai ficar tão triste que é capaz de não vir"

"Deixa passar esse negócio de Natal e Ano-Bom, que eu vou estudar uma maneira de ir pagando devagarzinho"

"Bom, o regime eu só vou começar depois do ano"

"Você não vai encontrar banco nenhum que desconte este título, a não ser depois do dia 1º."

"Eu quero ver se, de janeiro em diante, paro de fumar e de beber"

"Este ano só quem mandou presente foi o armazém e, assim mesmo, uma garrafinha de vinho do Porto"

"Eu já avisei a todo mundo, que não quero nada, porque não tenho para dar a ninguém"

"Logo que as crianças terminarem os exames, eu boto tudo num automóvel e levo lá para um sitiozinho que eu tenho em Thiago de Melo"

"Vocês sabiam que, no Norte, eles chamam rabanadas de fatias paridas?"

"O que é que você mais desejaria que o Ano Novo lhe trouxesse?"

"Minha filha, eu e as crianças estando com saúde, não preciso de mais nada"

"Minha mulher é uma santa. Ela falou que tudo o que eu tivesse de dar de Natal, desse às crianças"

"Falaram tanto dessas cestas! Você viu o que veio dentro?"

"Pois olhe, lá em Portugal, um quilo de castanhas custa três escudos"

"Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champagne nacional e o francês?"

"Com este, faz não sei quantos natais que eu não como uma fatia de peru"

"Você acha que, com as coisas como estão, este Governo agüenta até o fim do ano?"

Rio, 14-12-59


Texto extraído do livro "O Jornal de Antônio Maria", Editora Saga - Rio de Janeiro, 1968, pág. 74.

O Peru de Natal

Mário de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...


Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2003

vidrinhos coloridos na memória...

...eram de vidro grandes muito grandes e também pássaros em vidros coloridos às vezes caíam no chão e faziam lágrimas nos meus olhos e ficavam aos milhares de vidrinhos que me encantavam o olhar a neve parecia algodão doce aos caracóis e com as luzinhas fazia um efeito de fogueira para onde aquecia o transe violento sair dali para o sonho havia cheiro a rabanadas únicas enfeitadas de aletria e paus de canela com uvas à mistura para contar os sonhos havia sentir havia sapatinho no fogão o mais bonito de verniz e muita espera e espreita sono não dormido e vem um dia apanhei mesmo o pai natal só restavam as mágicas bolinhas e os cheiros afrodisíacos mais a ternura doce que era o meu natal...

pikonera

ISABEARCOIRISDOVINHO, PANHÓPITÉTA E OS CAVALOS AZUIS QUE LEEM POEMAS DE ANDRADE

Hoje há festa nas mãos.
As casas enfeitaram o sexo com avelãs e o céu vestiu-se de geleia. Mesmo os bois andam tocando flauta pelos montes enquanto carroças
deixam cair os cabelos em cima do mar.
Ninguém sabe de Sofiamantedaverdadedoseujoelho. Não quis colorir os lábios nem embebedar a cintura.
Contam histórias louras da sua história.
Alimentava as cassiopeias e bailarinava no umbigo dos meses. recebia os amigos e prendava-os de rainhas-cláudias que estimava nas traseiras de um osso do seu corpo. Talvez por isso, amasse Migueldasamendoeiras.
Nanda é uma tanjerina. E entre Paulavento ela e Sofiamantedaverdadedoseujoelho, as tres reprodutoras dos burros de cristal, calça-se o quarto para a dança.
Todos os povos da terra despidos. Parto pela ribeira.
Aufwierdersehen, gaivotas do campo.
- Companheiro, vou certo para as Doninhas Mal Cheirosas?
- Tão certo como a neve. Sabe onde fica Rabo de Peixe? Vou para lá.
- Joga Xadrez?
- Não aprecio. Olhe estas janelas de compota. estamos na aldeia das Colheres.
- Trabalha?
- Dou aulas numa faculdade de baloiços.
- E vive em rabo de Peixe?
- É verdade. Já se ve daqui.
- Que faz para morar ali?
- O corpo. Ve aquela rapariga com mãos de pastilha-elástica? Chama-se mar.
Salto para aqui. Preciso de roubar um braço de palavras. Vou vendê-las ao supermecado. Levo o resto da figura.

Carlos Mota de Oliveira

...que escreve no Alentejo virado para a lua e com tive o privilégio de estar algumas vezes.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.


Fernando Pessoa

domingo, 21 de dezembro de 2003

O Anti-Natal de 1951

Carlos Sussekind

No documento emitido pelo Juizado de Menores lê-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estação D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1ª classe dessa estação até a Estação Presidente Franklin Roosevelt, em São Paulo, para o Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a serviço deste Juízo".

Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. Não me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisição, objeta-me que só amanhã poderá dar as passagens, pois o regulamento ferroviário exige antecedência de três dias, não de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que não surjam obstáculos futuros.

A idéia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a não desviá-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em São Paulo, corresponde satisfatoriamente à nossa concepção (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. Não daremos nem receberemos presentes. O único presente tolerado é essa viagem de graça, que, a bem dizer, não é um presente, é um direito que me dá o cargo de Curador de menores. Doutor Lourenço e o filósofo Lourencinho estarão na deles, numa boa.

Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preço desse trajeto feito em poltrona comum. Sairíamos do Rio às 22:30 do dia 24 e chegaríamos a São Paulo às 9 da manhã de 25. Magnífico, sem dúvida. Mas repugna à minha consciência abusar da requisição, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a serviço do Juízo".

Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa última homenagem ao meu escrúpulo. O abuso já não será tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno — o que seria a hipótese mais econômica —, a consciência ficará mais leve, mas não sei como se comportariam o fígado dele e os meus rins. Enfim, veremos.
Precipitado no meu otimismo, faço, depois do jantar, uma descrição para a família toda reunida de como é o trem encantado em que viajaremos os dois. Vagões de aço inoxidável. As poltronas forradas de camurça. Giratórias. Ninguém em pé, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composição move-se deslizando, sem nenhuma trepidação, nenhum ruído, não entra pó, o ar que circula é como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro você pensa que é por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estação, abrir-se a porta e verá que é como se se abrisse uma fornalha. É a temperatura que faz lá fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inalterável e suavíssima ambiência! Moças e rapazes falam-se aos beijos. Quando não se beijam, cantam. Um sonho!

Diante da minha expansão, Lourencinho tem o comentário desalentador de que só vai a São Paulo para me acompanhar, e que não sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionará mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas não é só isso, não. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde não piso desde 1920 — há mais de 30 anos, portanto —, adverte logo: — Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado.

Vou buscar as passagens na estação. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilíssimo, que só amanhã, 22, poderá me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "três dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os três dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a véspera! Evito discutir etc.

Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisição menciona apenas "passagem de 1ª". Sem especificar "noturno", só se pode subentender "diurno". A fim de não dificultar a interpretação favorável em São Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitirá que eu cogite de noturno de lá para cá. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espécie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga à parte. São 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisição do Juízo de Menores só me deu o direito de andar dentro do trem até São Paulo e de São Paulo aqui. Custará isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graça, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrúpulo" de pleitear coisa melhor. . . O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras não se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras.

Volto no dia seguinte, o guichê das passagens está se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, não posso ter os assentos que peço, na sombra. "Nós aqui desconhecemos os lugares que são no sol e os que ficam na sombra. As ordens são para destacá-los automaticamente, sem intervenção de quem quer que seja".Conformo-me. Ele lê a requisição. O outro funcionário, ao datá-la, pôs certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se lá por que, 24.12.1952, equívoco palpável, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guichê nº 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guichê n° 5 já está outro funcionário, diverso do "amabilíssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificação não é da sua competência, e que o funcionário que poderia fazê-la só começará a trabalhar às 4 da tarde. Não posso tolerar semelhante absurdo. Volto então ao agente substituto. Ouve-me em silêncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: — O funcionário tem razão. Ele não pode retificar um erro que não cometeu. Mas o senhor, também, não vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se não puder, extraia outro passe.

E dá-me as costas. O algarismo não pôde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar" noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lápis, calca-o, descobre o carbono e diz:

— Não deu certo. — Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe.

Seria justo que minha odisséia terminasse aí. Mas não terminou. Vou para o bilheteiro do guichê n° 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto:

— Que é que essas poltronas têm de mais?

Ele não demora na resposta:

— Nada.

— Então por que se paga à parte? Se eu não pagasse, iria em pé?

O homem ajusta os óculos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me:

— Iria.

Quer dizer: um funcionário, viajando a serviço do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juízo de Menores, em nome do Ministro da Justiça, não tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso.

Mas ainda há mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou não, na sombra. Com uma irritação mal disfarçada em calma "superior", responde-me:

— Meu caro senhor, quer um conselho? Peça a Deus que sejam na sombra, porque só Ele pode decidir.

Ali a justiça divina já está feita de antemão. Qualquer dos lugares é igual nos benefícios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 às 18:25, quem tiver sol pela manhã não o terá mais à tarde, e quem, pela manhã, gozar da sombra, escaldará com o sol de depois do meio-dia.

Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas.


O texto acima está entre "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 544, seleção de Ítalo Moriconi, e foi publicado originalmente em "Contos Para Um Natal Brasileiro", organizado por Betinho para a Relume-Dumará — Rio de Janeiro, 1996.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

POEMAS BONITOS-Pedaços de cartas para um namoro

Hoje lembrei-me da querida Palmira e do livrinho que fez questão de me oferecer...e que tinha dedicado ao marido com o título, acima indicado e do qual escolhi um poema que acho uma delicia...que tb me apeteceu enviar para o ar...talvez um pássaro... o agarre pelo bico e quiça o cante...a alguém especial...

III

Embala-me no teu regaço
com esse teu jeito tão
meiguinho
como se eu fosse um bébé, um
passarinho

Ensina-me a voar
para longe, para onde eu quiser
Para depois escolher
um lugar no Paraíso

Maria Palmira M.Silva

quinta-feira, 18 de dezembro de 2003

CONSOADAS DA MEMÓRIA À MESA DA SOLIDÃO

II

Toda a infância, em horizonte
que defronte se levante.
(Junto a mim, alguém que conte e que cante).

Toda a infância - num aceno
que do céu faça sinal
a este nosso serão tão sereno
de Natal,

e hoje ao menos me transponha,
lá do extremo do confim,
ao pequeno que sonha
em mim -

Criança que me morreu,
deixando-me aqui assim
a sós entre mim
e eu!

Rodrigo Emílio
"A segunda Cegueira"
"Assinatura Solar"

FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia
(O Dilúvio e a Pomba)

QUIM (também conhecido...e apelidado muito carinhosamente de bandido...)


...
Não sei o que provoquei na gaivotinha talvez ela tenha imaginado coisas que eu pareço advinhar. Tais como, este menino está a querer uma grande brincadeira com bolinhas de muitas cores! Pérolas de facto são tão raras, porque se está a oferecer para poder ser para mim uma pérola?
Tem piada esta bolinha...vou ter que responder a este Bandido, sim porque neste dia muitas pseudo pérolas responderam mas nenhuma com argumentação tão convincente e com algo que não se pode explicar...mas se sente...revelação de maturidade e de luta constante para...passar...para este lado...e sobreviver neste habitat!...Onde a luta é renhida contra eventuais predadores...

continua :))

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

...desencanto...enfeitado com bolas surrealistas...

...eu deprimo... tu deprimes...o país deprime... o mundo deprime...a última tela pintada pelos falcões... não gostei (aliás não gosto de nenhuma...)...tu também não... o país também não... o mundo também não... lá estou eu com o meu idealismo... - falo do grupo dos meus heróis... -
desencanto... desencanto... desencanto...
...será que agora procuram dentes d`ouro em indigentes?...
...não aquele indigente tinha às tantas uma arma de destruição maciça na garganta!...
...e aquela era a festa de natal com uma representação teatral de pinceladas fortes de cores frias....porque já condenada...de uma morte anunciada...
... na sua tumba...vai haver uma grande mina de....
...não...um poço de petróleo!...