domingo, 28 de março de 2004

Encontro imaginário entre um grego antigo e um padre

Encontro imaginário entre um grego antigo e um padre
Extraído da obra The Truth about Jesus -- Is He a Myth?, parte I (A Parable, de 1909),
de M. M. Mangasarian.

Eu tenho hoje vinte e cinco séculos de idade, e estive morto por quase todos esses anos. Meu local de nascimento era Atenas; minha tumba não ficava longe das de Xenofonte e Platão, com vista para a glória alva de Atenas e as águas tremulantes da Mar Egeu.

Após dormir em minha tumba por tantos séculos eu despertei subitamente -- não posso dizer como ou por quê -- e fui transportado por uma força além de meu controle par este novo dia e esta nova cidade. Cheguei aqui ao romper do dia, quando o céu ainda estava entorpecido e sonolento. E ao me aproximar da cidade comecei a ouvir o tocar de sinos, e um pouco depois encontrei as ruas agitadas com multidões de pessoas bem vestidas em grupos familiares seguindo seu caminho para lá e para cá. Evidentemente elas não estavam indo para o trabalho, pois eram acompanhadas por suas crianças nos seus melhores rtajes, e uma expressão de alegria lhes adornava o rosto.

"Este deve ser um dia de festa e adoração, devotado a um dos seus deuses", murmurei para mim mesmo.

Olhando ao meu redor eu vi um senhor em uma elegante roupa preta, sorrindo, e sua mão se estendeu a mim com grande cordialidade. Ele deve ter percebido que eu era um estranho e quis me oferecer sua hospitalidade. E eu aceitei com gratidão. Apertei sua mão. Ele apertou a minha. Fitamos por um momento os olhos um do outro. Ele compreendeu a confusão que me tomava em meu novo ambiente, e se ofereceu para me esclarecer. Ele explicou a razão do toque dos sinos e o significado das multidões em festa andando pelas ruas. Era um domingo -- um domingo antes do Natal, e o povo estava indo para "a Casa de Deus".

"Certamente você está indo para lá também", disse eu ao meu amistoso guia.

"Sim", ele respondeu, "Eu conduzo o culto. Sou um sacerdote."

"Um sacerdote de Apolo?", perguntei.

"Não, não", replicou ele, levantando sua mão como que ordenando silêncio, "Apolo não é um deus; ele era apenas um ídolo."

"Um ídolo?", sussurrei, tomado pela surpresa.

"Percebo que você é grego", disse-me ele, "e os gregos", continuou, "apesar de suas notáveis realizações, eram um povo idólatra. Eles adoravam deuses que não existiam. Eles construíram templos para divindades que eram meramente nomes vazios -- nomes vazios", repetiu. "Apolo e Atena -- bem como todo o panteão olímpico -- não eram mais do que invenções da fantasia."

"Mas os gregos amavam seus deuses", protestei, com meu coração clamando no peito.

"Eles não eram deuses, eram ídolos, e a diferença entre um deus e um ídolo é esta: um ídolo é uma coisa; Deus é um ser vivo. Quando não se pode provar a existência de seu deus, não nunca se o viu, nem se ouviu sua voz, nem se o tocou -- quando não se tem nada provado sobre ele, ele é um ídolo. Você já viu Apolo? Já o ouviu? Já o tocou?"

"Não", disse eu, em voz baixa.

"Você sabe de alguém que o tenha feito?"

Tive de admitir que não.

"Ele era um ídolo, portanto, e não um deus."

"Mas muitos de nós, gregos, sentimos Apolo em nossos corações e fomos inspirados por ele."

"Vocês imaginam que foram", replicou meu guia. "Se ele fosse realmente divino, que estivesse vivo até hoje."

"Então ele está morto?", perguntei.

"Ele nunca viveu; e nos últimos dois mil anos ou mais o seu templo tem sido apenas um monte de ruínas."

Eu senti as lágrimas escorrerem ao ouvir que Apolo, o deus da luz e da música, não mais existia -- que o seu belo templo tinha sido arruinado e que o fogo sobre seu altar fora extinto; então, secando uma lágrima em meus olhos, eu disse, "Oh, mas nossos deuses eram justos e belos; nossa religião era rica e pitoresca. Ela fez dos gregos uma nação de poetas, oradores, artistas, guerreiros, pensadores. Ela fez de Atenas uma cidade de luz; criou o belo, o verdadeiro, o bom -- sim, nossa religião era divina."t;

"Ela possuía apenas um defeito", interrompeu meu guia.

"E qual era?", inquiri, sem saber qual seria a sua resposta.

"Não era verdadeira."

"Mas eu ainda acredito em Apolo", exclamei, "ele não está morto, eu sei que está vivo."

"Prove", disse ele para mim; então, pausando por um momento, "Se você o mostrar", disse, "nós nos prostraremos e o adoraremos. Mostre-nos Apolo e ele será nosso deus."

"Mostrá-lo!", sussurrei para mim mesmo. "Que blasfêmia!" Então, criando coragem, eu contei ao meu guia como mais de uma vez eu sentira a presença radiosa de Apolo em meu coração, e falei-lhe das linhas imortais de Homero a respeito do divino Apolo. "Você duvida de Homero?", eu disse a ele; "Homero, o bardo inspirado? Homero, cuja fonte de tinta [ink-well] era grande como o mar; cuja página imperecível era o Tempo? Homero, de quem cada palavra era uma gota de luz?" Então eu comecei a citar a Ilíada de Homero, a Bíblia Grega, adorada por todos os helenos como o mais raro manuscrito entre o céu e a terra. Citei sua descrição de Apolo, que cuja lira nada era mais musical, que cujo discurso mesmo o mel não era mais doce. Recitei como sua mãe foi de cidade em cidade procurar um lugar digno para dar à luz o jovem deus, filho de Zeus, o Ser Supremo, e como ele nasceu e teve seu berço em meio às vistas de todas as deusas, que o banharam em água corrente e o alimentaram com o néctar e a ambrosia do Olimpo. Então eu recitei as linhas que retratam Apolo rompendo suas ataduras, pulando do berço, e abrindo suas asas como um cisne, planando rumo ao sol, declarando que ele tinha vindo anunciar aos mortais a vontade de Deus. "É possível", perguntei, "que tudo isso seja pura invenção, uma fantasia do cérebro, tão insubstancial quanto o ar? Não, não, Apolo não é um ídolo. Ele é um deus, e o filho de um deus. Todo o mundo grego dará testemunho de que o que digo é verdade." Então eu olha para o meu guia para ver qual a impressão que este arrebatamento de entusiasmo sincero tinha provocado nele, e vi um sorriso frio em seus lábios que me cortaram o coração. Parecia que ele queria me dizer, "Seu pobre pagão iludido! Você não é inteligente o bastante para saber que Homero era, enfim, apenas um mortal, e que ele estava compondo uma peça na qual criou os deuses sobre quem cantava -- que estes deuses existiam somente em sua imaginação, e que hoje eles estão tão mortos quanto seu criador -- o poeta."

Por esta hora chegamos à entrada de um grande edifício que meu guia dissera ser a "Casa de Deus". Ao entrarmos vi luzinhas inumeráveis piscando em todo o seu espaçoso interior. Havia também pinturas, altares e imagens em todo o meu redor. O ar pesava com o incenso; um número de homens em vistosas vestimentas passava para lá e para cá, curvando-se e ajoelhando-se diante das várias luzes e imagens. A audiência estava de joelhos, envolvida em silêncio -- um silêncio tão solene que me deixou aterrado. Observando minha ansiedade para entender o significado de tudo isso, meu guia me pôs à parte e num susurro me disse que as pessoas estavam celebrando o aniversário do nascimento de seu lindo Salvador -- Jesus, o Filho de Deus.

"Apolo também era o filho de Deus", repliquei, pensando que talvez pudéssemos, afinal, chegar a um acordo.

"Esqueça Apolo", disse ele, com uma sugestão de severidade em sua voz. "Tal pessoa não existe. Ele era apenas um ídolo. Se você fosse procurar por Apolo em todo o universo, você jamais encontraria alguém que respondesse por esse nome ou descrição. Jesus", ele prosseguiu, "é o Filho de Deus. Ele veio à nossa Terra e nasceu de uma virgem." Novamente fui tentado a dizer ao meu guia que foi assim que Apolo se encarnou, mas eu me contive.

"Então Jesus cresceu e se tornou um homem", continuou meu guia, "realizando maravilhas nunca vistas, tais como andar sobre os mares, dar a visão, a audição e a fala aos cogos, surdos e mudos, converter água em vinho, alimentar miraculosamente as multidões, prever eventos futuros e ressuscitar os mortos."

"Claro, de seus deuses também é dito", acrescentou, "que eles faziam milagres, e de seus oráculos, que eles previam o futuro, mas há esta diferença -- as coisas que se contam de seus deuses são uma ficção, as coisas que se contam de Jesus são um fato, e a diferença entre o Paganismo e o Cristianismo é a difernça entre a ficção e o fato."

Só então eu ouvi uma onda de murmúrios, como o das folhas numa floresta, passar pela audiência prostrada. Em me virei e, inconscientemente, com minha curiosidade grega me impelindo, me dirigi aonde o maior número de velas ardia. Senti que talvez a comoção na casa fosse o anúncio de que o Deus Jesus estava prestes a fazer sua aparição, e eu queria vê-lo. Queria tocá-lo ou, se a multidão fosse grande demais que me impedisse de ter esse privilégio, eu queria, pelo menos, ouvir sua voz. Eu, que nunca tinha visto um deus, nunca tocado um, nunca ouvido um falar, eu que tinha acreditado em Apolo sem jamais ter visto algo provado a seu respeito, queria ver o verdadeiro deus, Jesus.

Mas meu guia pôs sua mão sobre meu ombro, e me puxou para trás.

"Eu quero ver Jesus", precipitei-me, virando-me para ele. E disse isso com reverência e boa-fé. "Ele nao estará aqui esta manhã? Não falará aos seus adoradores?", perguntei novamente. "Ele não os deixará tocarem-no, acariciarem sua mão, tocarem seus divinos pés, inalarem a fragrância de ambrosia de seu hálito, aquecerem-se na luz dourada de seus olhos, ouvirem a música de sua inflexão imaculada? DEixe que eu, também, veja Jesus", supliquei.

"Você não pode vê-lo", respondeu meu guia, com um traço de embaraço na sua voz. "Ele não se mostra mais."

Eu estava surpreso demais para fazer qualquer réplica imediata.

"Nos últimos dois mil anos", continuou meu guia, "não foi da vontade de Jesus se mostrar a quem quer que fosse; nem ele quis ser ouvido pelo mesmo número de anos."

"Por dois mil anos ninguém tem visto ou ouvido Jesus?", perguntei, meus olhos repletos de espanto e minha voz tremendo de excitação.

"Não", ele respondeu.

"Isso não torna, então," aventurei-me a perguntar, impacientemente, "Jesus um ídolo tanto quanto Apolo? E não são essas pessoas de joelhos diante de um deus sobre cuja existência ele estão nas trevas da mesma forma que os gregos com o belo Apolo, e de cujo passado elas só ouviram rumores com os que Homero conta de nossos deuses olímpicos -- tão idólatras quanto os atenienses? O que você diria", interroguei meu guia,"se eu exigisse que você mostrasse Jesus e o provasse aos meus olhos e ouvidos da forma como você me pediu para mostrar e provar Apolo? Qual é a diferença entre uma cerimônia em honra de Apolo e uma em honra de Jesus, já que é tão impossível dar uma demonstração oracular de um quanto de outro? Se Jesus está vivo e é um deus, e Apolo é um ídolo e está morto, qual é a evidência, já que um é tão invisível, inacessível e indemonstrável quanto o outro? E, se a fé de que Jesus é um deus o prova como um deus, por que a fé em Apolo não fará dele um deus? Mas se adorar Jesus, que pela maior parte dos últimos dois mil anos ninguém tem visto, ouvido ou tocado; se construir templos para ele, queimar incenso em seus altares, curvar-se perante seu relicário e chamá-lo de 'Deus' não é idolatria, também não é idolatria acender o fogo sobre os altares luminosos do Apolo grego, --Deus do alvorecer, mestre da lira encantada -- ele que com o arco e a flecha dobra o próprio fogo! Não estou negando", disse eu, "que Jesus já tenha vivido. Ele pode ter estado vivo dois mil anos atrás, mas se ele não tem sido ouvido desde então, se a mesma coisa que aconteceu às pessoas vivendo naquela época aconteceu com ele, ou seja -- se ele está morto, então você está adorando um morto, o que classifica sua religião como idólatra."

E então, lembrando o que ele me dissera sobre a mitologia grega ser bela mas não verdadeira, disse-lhe: "Seus templos são realmente magníficos e custosos; sua música é grandiosa e seus altares soberbos; sua litania é formidável; seus cantos são comoventes; seus incensos, sinos e lores, seu ouro e seus vasos de prata são todos de um gosto raro, e me atrevo a dizer que seus dogmas são sutis e seus pregadores são eloqüentes, mas sua religião só tem um defeito -- não é verdadeira."

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