segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

A máquina de escrever

Meu amor silabado minha exdrúxula

meu acento tão grave que me abre

minha rosa-dos-ventos minha bússola

minha vírgula tola meu sentido

reticências parágrafo gemido



A

caído

na tecla do ouvido

E

incerto

dois espaços parágrafo deserto

I

sorriso mundano que é preciso

O

círculo fechado

U

murmúrio atento e obrigado



Meu carreto de sonhos meu endereço

retrocesso paragem recomeço

minha caixa postal sem nada dentro

minha resposta paga TEMPO E VENTO

meus dois pontos de angústia CARNE E ÁGUA

minha letra dobrada MAR E MÁGOA

meu ditongo de sono PÃO E CÃO

meu açaimo de frases de palavras

agastadas batidas desgastadas

ditadas digitadas agitadas

pela dança guerreira dos meus dedos.

Minha letra maiúscula de MEDO

tabulador da minha solidão.



Minha aspa dos olhos minha infância

minha última cópia da verdade

til subtil caindo no papel

pelo trema abolido da saudade.



VINTE ANOS DE POESIA, A LITURGIA DO SANGUE, CIRCULO DE LEITORES, 1984, P.73

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